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Por que é importante usar os termos jurídicos certos na literatura?

Quem acompanha o blog, pelo menos nos últimos meses, viu alguns dos meus dramas quanto furto/roubo e infanticídio sendo usados de formas erradas. E muitos de vocês podem pensar que é prepotência da minha parte, porque estudante de direito tem fama de ser chato, né? E é mesmo, não vou vir aqui falar que somos anjos incompreendidos, porque é mentira. Somos insuportáveis mesmo.

Só que assim, gente, já partindo para o tema da discussão de hoje, nosso serviço já é complexo, pois muitas das camadas da sociedade não têm noção dos próprios direitos. Vocês sabiam que aquela coisa de cinema de não poder entrar com alimento de fora, é errado? Considerado uma prática abusiva, não podendo acontecer, indo contra o Código do Consumidor. Sabe aquela coisa de “se você não me pagar vou chamar a polícia, te prender e pipipipopopo”? Uma pessoa não pode ser presa por uma dívida também.

Enfim, esses são só dois exemplos. Tem vários outros direitos que são lesados diariamente e ninguém sabe. Uma coisa que eu defendo, é que tenha uma matéria dedicada aos Direitos Fundamentais na grade do ensino médio, mas isso não vai acontecer tão cedo e o governo se beneficia com a ignorância das pessoas. Então… não vai ser tão logo mesmo, se é que um dia vai.

Eu sou autora, como vocês sabem, e uma coisa que eu me preocupo bastante, é em pesquisar bem as coisas, seja da área que for, para que tudo fique bem representado e realista (exceto quando eu decido usar da licença poética, isso acontece também, mas não vem ao caso). Claro que estou sujeita a erros, sou humana e não tenho como saber de tudo, mas me esforço para deixar o mais próximo de perfeito. E todos nós, autores ou tradutores, temos essa obrigação.

As pessoas já conhecem pouco de Direito, aí chega os tradutores/autores e fazem essas trocas, só complicam o entendimento, sabe?

Como eu estava dizendo, a pessoa tem os direitos lesados e nem tem noção do que está acontecendo, do nome daquilo que a acomete. Pouca gente no Brasil lê, é verdade, mas com essas poucas pessoas sabendo algumas tipificações básicas, isso já faz a diferença.

As novelas representam o Direito de forma errada, os filmes também, por quê os livros precisam seguir isso sendo que têm a possibilidade de serem mais abrangentes, além da fama de serem mais carregados de consistência e erudição?

São só termos, que sim, já fazem a diferença na convivência em sociedade. Porque se, por exemplo, a pessoa for fazer um B.O., ela já facilita o trabalho de quem vai fazer pra ela, citando o nome correto para o que aconteceu.

Pegando o exemplo mais famoso: Furto é subtrair coisa alheia móvel sem imposição de ameaça ou violência. A pena é menor (de 1 a 4 anos), sendo um crime menos grave, roubo já há imposição de ameaça ou violência, pena de 4 a 10 anos.

Cara, nem precisa saber os outros nuances de subtração, só esses dois já são ótimos pra melhorar o conhecimento das pessoas. São os mais confundidos também.

Indo um pouco mais além de termos, outra coisa que me incomodou foi no pior livro desse ano, de longe, O Lado Bom de Ser Traída, em que a autora decidiu colocar os personagens no ramo jurídico, sendo que ela claramente não sabe nada sobre Direito ou sobre o trabalho no meio, porque o homem é juiz e tem tempo pra ficar o dia inteiro atrás de mulher.

Gente, juízes têm processos pra analisar! E pra julgar! Mesmo quando não estão no trabalho em si, em casa eles também trabalham pra caramba! Até essas coisas básicas complicam, o funcionário público já é mal visto, aí tem autora que faz a pachorra de retratá-los dessa forma! Uma ofensa, para dizer o mínimo.

No meu livro, Inalcançável, que se passa no século XIX, eu pesquisei muito sobre o parto naquela época, foi bem dramático e eu li vários artigos sobre o assunto para ter certeza. Aliás, foi uma coisa que eu até esqueci de comentar nas notas e muita gente acha que eu adiantei muito as coisas. Sendo que não, eu realmente pesquisei.

Se eu preciso pesquisar assim sobre medicina, porque o direito as pessoas banalizam tanto? Não digo nem pela troca de termos, mas por essa questão de querer representar o meio jurídico e representar de forma errônea, como se fôssemos todos vagabundos. Vocês entendem o quanto é injusto?

Os livros também carregam esse teor de informar a população. Se você vai retratar o meio, seja realista, tente colocar de forma instrutiva, expondo coisas construtivas ali no meio para que a pessoa termine o livro com um aprendizado no fim.

A impressão que eu tenho, é que as pessoas acham que conhecem o direito, o que mais vejo é gente com 0 noção do assunto falando como se fosse profissional nas redes por aí. E isso é cultural, o povo acha que saber dois termos já basta pra querer opinar em coisas que as pessoas passam 5 anos estudando.

Em qualquer discussão política a gente vê isso, a pessoa ouve falar de uma lei, mal lê o que está escrito nela e já acha que é especializado em direito a ponto de opinar de forma fervorosa. É ridículo.

Se os autores pesquisam para colocar medicina, engenharia, nos livros, por quê esse relaxo com o Direito?

A todos os autores que lerem isso aqui, por favor, tomem esse texto como uma crítica construtiva. Se for pra usar um termo do meio, tenha certeza que é o correto pra não seguir disseminando informações equivocadas (que é o que mais tem por aí). Até pequenos termos fazem a diferença, sim.

2 comentários

  1. Obrigada! ❤️❤️ E a galera de direito é chata mesmo 😂 tanto na faculdade quanto fora, lido com os dois tipos e às vezes até eu, que também sou chata, não suporto, hahahahaha

    Curtido por 1 pessoa

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