Resenhas

RESENHA + Filme X Livro [10]: Precisamos Falar Sobre Kevin, de Lionel Shriver.

Saiba minha opinião sobre o livro Precisamos Falar Sobre Kevin, além de ver a comparação entre filme e livro.

Livro: Precisamos Falar Sobre Kevin

Autora: Lionel Shriver.

Páginas: 464.

Editora: Intrínseca.

Lido em: 5 dias.

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Sinopse:

Lionel Shriver realiza uma espécie de genealogia do assassínio ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas. Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 11 pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive. A vida normal se esvai no escândalo, no pagamento dos advogados, nos olhares sociais tortos.
Transposto o primeiro estágio da perplexidade, um ano e oito meses depois, ela dá início a uma correspondência com o marido, único interlocutor capaz de entender a tragédia, apesar de ausente. Cada carta é uma ode e uma desconstrução do amor. Não sobra uma só emoção inaudita no relato da mulher de ascendência armênia, até então uma bem-sucedida autora de guias de viagem.
Cada interstício do histórico familiar é flagrado: o casal se apaixona; ele quer filhos, ela não. Kevin é um menino entediado e cruel empenhado em aterrorizar babás e vizinhos. Eva tenta cumprir mecanicamente os ritos maternos, até que nasce uma filha realmente querida. A essa altura, as relações familiares já estão viciadas. Contudo, é à mãe que resta a tarefa de visitar o “sociopata inatingível” que ela gerou, numa casa de correção para menores. Orgulhoso da fama de bandido notório, ele não a recebe bem de início, mas ela insiste nos encontros quinzenais. Por meio de Eva, Lionel Shriver quebra o silêncio que costuma se impor após esse tipo de drama e expõe o indizível sobre as frágeis nuances das relações entre pais e filhos num romance irretocável.


Logo que li a primeira página desse livro, já sabia que dali viria um livro difícil. Não pela premissa, que eu já sabia e demora algumas páginas para ser citada, mas porque percebi o estilo narrativo da autora (sim, por incrível que pareça é uma autora!): altamente descritivo. Aquele tipo descritivo chato, cansativo, precisei de pouquíssimas páginas para ficar cansada, é muito maçante e se alguém escreve cartas daquele jeito… Misericórdia.

É um livro que dá para pular algumas linhas facilmente. Eva, nas primeiras 100 páginas, fica lembrando de alguns ocorridos com o pai de Kevin que ninguém queria saber. Eu, como leitora, queria saber do acontecimento fatídico, do filho deles, a história deles em si podia ser mostrada de forma menos enfadonha e alongada, afinal, não deixa de ser importante sabermos como eles se conheceram, e porquê estavam separados. Tirando o fato de que algumas das revelações dela são relevantes e intrigantes.

Mas poderia se eliminar umas 150 páginas desse livro se tirassem essas divagações chatas e descartáveis da protagonista.

Além de ser cansativo, considerando uma comunicação entre pessoas reais, não fica nada real, já que Franklin não tem amnésia nem alzheimer (SPOILER: e mesmo que ele, na verdade, esteja morto e aquelas cartas servissem como um desabafo para ela, ainda é um estilo muito cansativo e chato), o que mostra a falta de necessidade de relembrar tantas coisas e momentos de forma minuciosa. A cada nova pessoa que aparece a autora sente necessidade de pontuar uns 5 adjetivos elaborados pra elas, a mesma coisa para circunstâncias e lugares (como a casa que o Franklin comprou, Eva fica fazendo dezenas de divagações tolas que não influenciam na ambientação, muito menos na narrativa).

Esse livro seria muito melhor com uma escrita mais direta e simplificada, de verdade. Porque a intenção é boa, a trama é excelente e eu realmente não imagino outra forma de fazer esse enredo sem ser com cartas ou, talvez, um diário. Acredito que se seguisse a rotina da Eva, a obra ficaria inadequada, não caberia com o que a autora quis passar.

Então o “erro” disso aqui é a escrita, não tem outro defeito a se destacar. Eu adorei que se tratou de maternidade compulsória, aquela coisa da mulher ter filho por pressão social, não por vontade própria. As mulheres crescem ouvindo que a vida só fará sentido se elas tiverem filhos, sendo que não é assim que a banda toca.

Você, mulher, pode ser feliz sem uma cria. Está tudo bem, você não é um monstro, nem anormal, só tem uma percepção diferente dos demais. Sinta-se realizada com questões profissionais ou qualquer coisa assim, não se torne mãe só porque a sociedade ou uma pessoa específica quer que assim seja. Quem decide sua vida é você mesma.

Além desse ponto de discussão, também tem a superproteção, essa pelo lado de Franklin, que nunca abriu os olhos para o fato do filho dele não ser uma criança “normal”.

Eu me questionei durante várias partes da leitura, porque mesmo Kevin tendo 5 anos ou até menos, dava muita raiva, ele já tinha uma personalidade intragável desde cedo e acredito que daria até mesmo para evitar o acontecimento fatídico se desde cedo ele tivesse acompanhamento psicológico, porque sim, desde cedo a criança já apresenta sintomas de desvios de personalidade. Eu sempre digo que meus filhos vão aprender a falar e já estarão fazendo terapia, tenho um medo real dessas coisas, ninguém quer ser mãe de um psicopata, afinal.

Não que seja culpa deles, não é culpa dos pais, porém podiam ter remediado as coisas com um pouco mais de atenção, especialmente por parte do pai. O Franklin só sabia apontar para o desempenho da Eva como mãe e achava que o filho era como qualquer outra criança, o que colaborou para que Kevin chegasse aos 15 anos da forma que chegou. O menino era dissimulado, fingido. Sabia bem a hora de se expor ou omitir perante ao pai. E Eva, mesmo sendo uma mãe questionável, se preocupava com esses pequenos indícios de desvio.

São tantos tópicos de discussão que esse livro traz… É uma leitura fantástica, te leva aos lados mais extremos de posicionamento e sensibilidade. Como a história se apresenta a partir da visão de Eva, pode ser que algumas situações sejam afetadas, mas eu senti tanta integridade nos relatos dela que confiei em cada palavra que ela dizia. Não que ela seja uma personagem perfeita, vários defeitos são perceptíveis de longe e até o próprio Kevin ressalta alguns, mas ela realmente parece mudada considerando os relatos passados e seus pensamentos do momento.

Ela sentiu a culpa por ter dado à luz um sociopata, sentia também ao ver seu casamento se desmanchando sem que nada pudesse ser feito e o arrependimento era palpável perante a realidade dela antes mesmo do filho matar 7 pessoas em uma escola.

Afinal, o que você faz com um filho sociopata? Na leitura dá vontade de jogar numa vala, espancar, matar, mas na realidade sabemos que essas coisas não são viáveis nem saudáveis.

Já falei nessa resenha e repetirei: o melhor caminho para Kevin ao menos amenizar sua personalidade horrível seria a terapia! Se seu pai não fosse um completo idiota acéfalo, talvez várias coisas do enredo pudessem ser evitadas.

Há um tempo eu estava conversando com a minha psicóloga e ela comentou sobre alguns casos de autismo em que os pais não aceitavam o diagnóstico, o que só piora a patologia da criança. Todos os vizinhos e conhecidos detestavam Kevin, isso não é porque ele era um injustiçado, coitadinho, é porque ele era um delinquente! E Franklin sempre se negou a ver isso, preferindo jogar a culpa nas costas dos outros. É tão revoltante e tão real que chega a dar raiva.

O que o tornou daquele jeito? Foi Eva o renegando desde o útero, sua criação, os modos da mãe? A verdade é que não sabemos, nem saberemos tão cedo. Não é à toa que tantas pessoas estudam a mente humana. São temas complexos. E não adianta jogar a culpa pra cima de ninguém. Kevin era daquele jeito e ponto final.

O livro tem muitas reviravoltas, vale dizer. Não é só porque a premissa entrega grande parte do enredo que, por isso, a gente saiba tudo. Fiquei chocada com pelo menos três acontecimentos. A parte da entrevista é incrível de uma forma mórbida.

Enfim, só por essas divagações expostas aqui vocês já podem ver que foi um livro que me tocou no fundo da alma, hahaha. Ele toca e cria feridas que você nem podia imaginar em relação a maternidade. Eu, como uma pessoa que ainda não é mãe, mas que deseja ser, adoro ser levada a questionamentos tão cruéis, para refletir e pensar em todas essas questões, que devem ser levadas em conta, sim. Já vi muita romantização por aí e é um alívio ver as coisas de forma real e crua.

Não vou me estender muito para não acabar soltando spoilers, só digo que, embora de uma leitura complexa graças ao modo que a autora escolheu para contar sua história, esse livro é indispensável. Nos incomoda, nos faz abrir a mente e principalmente: Nos leva a lugares e questionamentos que poucos tem coragem de explorar.

É um livro sobre maternidade, quem for levar essa resenha em consideração para lê-lo, por favor, não se esqueça disso.

Não é uma leitura perfeita, mas chega perto disso.

4 estrelas

Em 2011, 8 anos depois do lançamento do livro, recebemos uma adaptação.

Eu assisti para trazer aqui uma comparação a vocês e, particularmente, achei um filme bastante cansativo e parado em diversos momentos. Em alguns momentos eu fiquei em dúvida se o filme estava completo, se aquela versão que eu estava assistindo era pirata e mudada ou qualquer coisa do tipo. Eles jogam cenas aleatórias uma atrás da outra que confundem a mente durante todos os primeiros 30 minutos.

Em outros momentos, a câmera foca na atriz ou ator durante múltiplos minutos sem que estes façam nada. O início do filme é muito maçante e não fixa a narrativa em uma só coisa ou um só momento, o que não me deu uma sensação boa. Me irritou, na verdade, me deixando agitada.

O livro também tem essa narrativa bagunçada, mas não mistura tanto assim as coisas! Você consegue compreender o ponto principal de cada capítulo.

A exploração dos tons de vermelho na fotografia é interessante e perturbadora. Não é um filme vil, nem mostra a violência em sua forma explícita, mas perturba em sua forma mais velada de apresentar as situações.

Gostei das atuações, nem uma descabida ou que não tenha me convencido. Um destaque a mais pra Tilda Swinton, que soube explorar bem as várias camadas de sua personagem.

Eles tiraram algumas partes que eu acharia interessante de vislumbrar numa adaptação, mas que não fazem tanta diferença, como a parte em que o Kevin arma para cima de uma professora de teatro, fingindo ter sofrido um assédio sexual para que ela seja demitida. Aquela viagem em que Eva ficou cerca de um ano longe de casa também seria uma coisa boa para se explorar. Kevin tinha uns 5 anos e ela o deixou com o pai para ir até a África, tentar recuperar um pouco do que ela era antes de se tornar mãe (uma viajante, uma mulher “livre”, outro ponto não explorado)

Ah! E como esquecer que eles também não mostraram o fato mais importante de todo o livro! Que é: Eva não queria ser mãe. Ela foi, de certo modo, manipulada para engravidar. Isso não ficou claro e eu não fiquei agradada com esse fato. Parece que ela “odiava” o Kevin de graça, sendo que tem toda uma construção por trás disso.

Uma outra cena onde se mostra a sociopatia do garoto desde pequeno também seria intrigante, senti falta da parte do baile, onde ele chama uma menina que sofre de anorexia de gorda e pouco tempo depois a mãe da menina bate na porta da família para pedir alguma coerção. Aliás, essa mesma menina foi uma das vítimas fatais de Kevin. Outra coisa que eu achava legal de se ver na adaptação. Kevin escolheu a dedo suas vítimas, e não por terem feito bullying com ele ou qualquer coisa assim. São motivos um tanto… Subversivos.

Kevin também já havia tido um pequeno encontro com a polícia alguns anos antes de ser condenado, ele, junto de um amigo que foi excluído na adaptação, havia jogado tijolo em alguns carros numa rodovia (se não me engano). Outro momento para crucificar Franklin, já que ele passou a mão na cabeça do filho, falando que a culpa era inteiramente do outro garoto, mal dando uma bronca nele.

A parte do julgamento também, ainda que tenha sido breve, era interessante de se tratar. Fizeram uma referência no início, mas lá no fim do livro, apresentaram, na defesa, algo bem intrigante quanto ao planejamento do Kevin. Ele começou a tomar um antidepressivo pouco tempo antes do massacre, esse remédio já tinha dado efeitos homicidas em outros casos e ele usou disso para atenuar sua pena, tendo planejado tudo com uma maestria assustadora. Se essa inteligência fosse usado para outro lado…

Outros pontos cortados não fazem diferença, acho que esses são os principais.

Eu gostei da trilha sonora, as músicas e letras combinaram com cada momento. Enfim, as partes técnicas são ótimas.

Eu não acho que o filme seja ruim, nem por si, nem como adaptação, já que é fiel ao original e apresenta uma complexidade equivalente. Acho que o roteiro e a direção podiam ser um pouco mais ágeis em alguns pontos, além de terem colocado uma ou outra divagação necessária da Eva. Pois muitos momentos não fazem tanto sentido na adaptação sem os pensamentos dela que são apresentados no livro. Um exemplo: a parte em que Kevin fica doente, aos 10 anos, Eva fala uma coisa bem intrigante sobre como não somos nós mesmo quando nos encontramos enfermos que realmente me tocou e fez refletir quanto a toda aquela circunstância e a convivência deles de antes.

Para finalizar, eu fui marcar o filme como visto no Filmow e, como de praxe, dar uma olhadinha no que as outras pessoas acharam. Uma coisa que me chateou muito é um comentário com mais de 100 curtidas jogando a culpa da personalidade de Kevin nas costas de Eva, por causa da negação na época da gestação e da depressão pós-parto. Não! Não é isso que o filme ou livro apresentam!

Graças aos céus teve uma ou outra alma sábia que comentou a verdade: O Kevin é doente! O desgosto mútuo entre ele e a mãe influencia em suas ações? Sim! Mas não são a causa dela. Kevin tem desvios de personalidade, isso representa uma complexidade de doenças mentais que mudam o que vocês chamariam de “normal” quanto ao comportamento em sociedade.

Então não adianta jogar a culpa em cima de uma terceira pessoa. A culpa é dele e do desvio com que ele sofre. Lembrando que sociopatas, diferente de esquizofrênicos, retardados mentais ou qualquer outro tipo de pessoa doente, são imputáveis, pois têm noção de suas próprias atitudes!

Ninguém culpa a mãe de alguém quando a pessoa nasce esquizofrênica e faz algo errado, vale o mesmo para essa situação aqui. Como eu disse mais acima, na resenha, ninguém quer ter filho sociopata.

Não dizendo que a Eva seja santa, nós sabemos que não é, ela é elitista, preconceituosa com vários tópicos, apenas não acho justo crucificar ela dessa forma, por esse motivo. Eu diria que Franklin tem muito mais culpa que ela no final das contas, se for pra jogar a culpa em alguém, mas é o machismo enraizado, né? Sempre é a mãe, a mulher, sempre, sempre.

Foi esse tipo de pensamento que sentenciou a mãe de Dylan Klebold (do massacre de Columbine), mesmo que essa mãe tenha sido levada ao ponto de desejar pela morte do filho quando soube da conduta homicida dele. Indico que confiram esse artigo aqui.

Enfim, não fiquem jogando culpa em ninguém, não. Leiam, assistam, e tenham noção de que algumas coisas não giram em torno da simples culpa, mas sim da complexidade da mente humana.

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