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Vamos discutir sobre: Leitores que problematizam demais.

Debatendo sobre leitores que problematizam demais.

Ontem, dando uma olhada no meu feed do Insta, tive a infelicidade de ver um post que vou deixar disposto aqui em um print para vocês.

Pessoas problematizando A Seleção! É isso mesmo que vocês estão lendo. Uma série juvenil, feita para ser algo água com açúcar, para você se divertir, não refletir, e o povo pedindo coisa adulta disso.

Ah, vocês me poupem. Ler depois de anos e sentir que não é tudo isso, ok, eu não me importo e imagino que muitas das minhas leituras da pré-adolescência, se refeitas, também me dariam essa sensação. MAS, outra coisa completamente diferente é você pegar um livro juvenil, que você leu quando jovem, e querer que repentinamente, só porque você amadureceu, ele amadureça também.

Não é assim que o mundo gira, colegas.

Uma coisa que eu sempre faço questão de colocar na minha cabeça quando vou ler qualquer livro, é o gênero dele. Isso faz a diferença, mesmo que não pareça, porque cada um tem seu estilo de narrativa e enredo. Uns mais leves, outros mais pesados, ano passado eu fiz uma resenha de O Desafio de Ferro, da Cassandra Clare com Holly Black, e ressaltei o fato de ter colocado na minha cabeça que era um livro juvenil, ou seja, não fala diretamente comigo. A leitura foi ótima mesmo com esse fator.

Esperar grande aprofundamento em questões sociais de A Seleção, é como esperar uma galinha voar. Não tem coesão.

As próprias capas dos livros entregam que é história de romance, toda fofinha, e eu acho que considerando a proposta, Kiera trata até demais as questões políticas e sociais. De plano de fundo? Sim, mas essa sempre foi a intenção! Quando algo é colocado em plano de fundo, é porque não é o foco, oras!

Eu nem mesmo entendi onde a pessoa quis chegar ao citar “diversos problemas sociais e/ou elitistas”, amigo, explica pra gente aqui, você esperava exatamente o que?! Um mundo de conto de fadas onde tudo é perfeito e não existem injustiças? Pois veja bem, o mundo criado em A Seleção tem muita conexão até mesmo com a nossa realidade! Castas existem na Índia, e deixa eu perguntar algo pra vocês: na suas cidades, não existe uma divisão abstrata de bairros de classe alta, média e baixa? Porque na minha tem, e isso é pode ser interpretado como uma espécie de casta para a nossa realidade ocidental atual.

Por isso eu não reclamo do mundo que a Kiera criou, ele é realista e a America está ali, lutando para mudá-lo como qualquer um de nós! Ou você vai me dizer também que as ações da America não são politizadas, mesmo que inconscientemente?

Para deixar mais claro, America tá lutando por direitos da mesma forma que nós devíamos estar fazendo, é isso que a autora quis passar, tenho certeza.

Ademais, li um comentário de uma garota falando que estava “puta” por causa da releitura sem especificar motivos, daí outra foi perguntar porquê e ela respondeu “por causa de tudo que envolve as partes sociais, comecei a apoiar os surtos da America” olha, se você não ficava “puta” e não apoiava antes, aí o problema está aonde? Eu deixo você adivinhar, querida.

Ah, outro ponto de discussão que eu vi: questão de representatividade. Assim, galera, nesse ponto eu concordo em partes.

Não concordo totalmente, porque essa questão começou a ter mais visibilidade há o que? Uns 5 anos. Antes ficava muito no nicho das “minorias” esse tipo de discussão, a Kiera não tem uma culpa exata no meio disso, porque colocar a maioria branca é algo inconsciente para muitos de nós, infelizmente, já que o racismo é enraizado na sociedade.

Não adianta querer pegar uma obra de 1600 quando existia escravidão e criticá-la por tratar negros como inferiores, naquela época (e eu ressalto isso com 0 agrado), era o normal para as pessoas. 8 anos atrás, representatividade era um tópico que eu nem mesmo tinha ouvido falar. Então é complexo, sabem? Se desconstruir nós fazemos no dia-a-dia, antigamente Kiera devia estar no início do processo ainda, vamos começar a apedrejar a obra dela só porque, como TODOS nós, ela não era desconstruída há alguns anos? Para mim, não faz sentido. Se tivessem passagens racistas (como Monteiro Lobato), homofóbicas, fascistas, entre outros, aí sim, poderíamos discutir. Mas da forma que está lá… Realmente acho incoerente querer apedrejar por causa disso.

No restante dessa militância louca e desnecessária, a pessoa falou coisas que eu não concordo nem um pouco e enfim, problematização exacerbada né? Por isso quando reclamamos de problemas sociais, muitas pessoas falam que somos exagerados, tem uma laia aí que leva o nível de discussão às alturas da militância e, muitas vezes, afastam diversos indivíduos do nosso lado, ao invés de tentar mudá-los.

Novamente, eu repito, está tudo bem você reler A Seleção e achar que não é tudo aquilo que você leu na adolescência. O problema é querer militar tanto a ponto de arranjar problema onde não tem ou onde você não tinha intelecto suficiente pra perceber na época. Aí você vai odiar mesmo.

Quando for pegar para reler, lembre-se, nem tudo precisa, necessariamente, ser alvo de militância, esse não é um livro adulto. Não é um livro pra refletir, embora você possa fazê-lo em algumas partes. Aliás, olha, essa parte de representatividade pode ser até interpretada como crítica também. Ficamos muito voltados para o lado da elite de Illea, as únicas que não são ali no meio, são as selecionadas, que olhe só o título que dão a elas! Todas foram escolhidas a dedo, se a sociedade daquela época fosse tão racista quanto a nossa, podem ter certeza que no meio dessa escolha excluiriam as negras, infelizmente, porque isso é o ser humano. Além disso, nós temos uma oriental. É pouco? É, mas marca presença ali.

Representatividade LGBTQI+ aí é mais complicado de arranjar justificativa mesmo, poderia ter alguém ali entre as selecionadas ou entre os guardas, né? Mas enfim, Kiera já se mostrou alguém politizada, então acho que era questão de desconstrução e percepção, de fato.

O que me deixa mais irritada no meio disso tudo é que livros que realmente precisam ser problematizados não são! Vamos criticar Belo Desastre? Aquela merda de livro que exalta relação abusiva, sexo sem camisinha? Eu não vejo quase ninguém criticando essa porcaria, sendo que esse sim, tem problemas gritantes e absurdos até mesmo para a época em que foi escrito. After, graças a Deus, já é problematizado, no entanto, há vários outros por aí que vocês poderiam criticar mais, para ver se a autora se toca e muda de percepção, se desconstrói. O Professor da Tatiana Amaral, é outro que não vejo quase ninguém problematizando sendo que teve falas racistas, apesar de terem tirado nas novas edições, rs. E se querem criticar coisa antiga, Crônicas de Nárnia! Deem uma lidinha em específico no conto O Cavalo e seu Menino, vão ver a representatividade bem legal que C. S. Lewis deixou lá para árabes e negros (detalhe a qual muita gente se faz de cego pra não criticar o grande mestre racista e suas crônicas religiosas alienantes)

São muitos os livros que podem ser execrados, sendo eles, agora sim, com adultos como alvo. Eu já problematizei alguns livros pra vocês aqui e A Seleção não será um deles. Sinto muito. Vamos militar só quando tem sentido, ok?

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