Vida de escritora

Diário de uma Escritora [10]: Sobre se autossabotar.

Desabafando sobre como o mercado editorial nos limita até em nosso interior.

Muitas vezes eu uso esse espaço do Diário de uma Escritora como desabafo, e vou estar fazendo isso de novo agora.

Depois de dois meses e poucos dias que comecei a realmente escrever meu terceiro livro, ele chegou na página 100 do word. Motivo de felicidade? De entusiasmo? Não, acontece que eu não consigo ficar feliz, porque eu penso em tudo o que eu passei com o Inalcançável, quantas portas se fecharam pra mim simplesmente porque meu livro tinha 430 páginas. Eu sentia um pressentimento ruim quanto a esse número na época que escrevia, afinal, primeiro livro com essa quantidade gigantesca de páginas, eu sei como funciona a mente de leitores, eu também relutaria se visse isso. Mas nada foi tão impactante quanto viver isso no mercado editorial. De ver uma agência que trabalha com as maiores editoras do país, renegando e desconsiderando meu trabalho só porque ele é grande e porque eu não queria que eles fizessem cortes, tirando, por mais mínima que seja, uma parte da minha essência dali de dentro. Tudo foi escrito por um motivo, sabe?

Eu não acho legal moldar o trabalho dos outros pra ficar sempre igual ou similar, isso nunca deu certo antes em vários sentidos. As fábricas, na fase de trabalhos braçais, causavam várias doenças de articulação nos funcionários, que sempre tinha que fazer coisas repetidas, vários mercados estão saturados porque não inovam, não dão espaço pro novo e sempre ficam na mesmice. Fazem o mesmo com a escrita, todo o material inovador que surge é de fora, vem de outros países, pois aqui nos limitam em absolutamente tudo.

Tem que ser comercial, ou seja, clichê, porque eles vão apontar o que o povo gosta de ler: coisas que já viram em outras obras e que deu certo. Tem que ser pequeno também, porque livro grande de autora nacional a gente não investe, não adianta insistir.
Esses fatores cortam muito nossas asas, eu consegui uma editora incrível que acreditou no meu sonho tanto quanto eu. Obrigada, Wall por ter me dado tanto, por deixar o Inalcançável em sua integralidade. Você foi um anjo na minha vida, mas sabe, eu tenho planos de mudar de casa editorial pro meu livro 3. Porque acho que isso vai ajudar a propagar meu trabalho para outros públicos, editoras pequenas são complexas aqui no Brasil. O público geralmente é bem pontuado, penso que envolve até uma questão de confiança.

Enfim, pensar, agora tendo erudição de como é o mercado, em procurar novas editoras no futuro, é algo que simplesmente está estragando minha experiência de escrita.
Eu me divirto demais escrevendo esse terceiro livro, ele é o mais engraçado dessa trilogia que estou finalizando e é intenso de uma forma diferente. Exaltando a família, as raízes. E os objetivos.

Por isso mesmo que eu escrevi esse tanto em menos de 3 meses, estava super empolgada, nunca ri tanto escrevendo, porque eu comecei a fazer sátiras até comigo mesma no meio da escrita. Quando eu via que estava repetindo alguma situação já jogava um deboche ali para tornar a coisa engraçada e, na minha sincera opinião, está ficando incrível. Sou suspeita, minha leitora beta disse que está sendo o favorito dela da trilogia, e talvez ela também seja suspeita, porém tudo isso me animou e momentaneamente me fez esquecer daquele fator chato de ter que formar esse livro de forma “comercial”. Fui vendo as páginas aumentando e o desespero me afetou, não posso negar. Acabei de chegar na página 100 e tive uma leve crise de ansiedade com isso. Eu fiquei muito traumatizada com essa coisa de publicação do Inalcançável, que isso fique claro, só de me imaginar passando por algo semelhante, eu sinto vontade de chorar, porque foi basicamente isso que fiz durante todo o processo. Até mesmo quando já tínhamos definido a casa editorial eu chorava. Qualquer coisinha que dava errado, eu já estava em prantos pensando que meu trabalho era uma merda, que eu sou incompetente. Enfim, é a ansiedade falando por mim. Ela sempre se sobressai.

E essas ocasiões me fazem pensar em continuar na The Books, sabe? Por uma simples questão de conforto, porque eu conheço a Wall e tenho medo do desconhecido, mas aí eu estaria fazendo justamente o que critico: ficando na mesmice, o que não me parece saudável. A vida é se arriscar, não?

Só que traumas passados marcam a alma. E a minha ainda não se recuperou.

Todos esses sentimentos expostos estão me limitando, infelizmente. Mesmo que eu queira evitar. Vivo em empasse nesse quesito, e eu acabo me adiantando, porque eu sou ansiosa e com o Inalcançável eu não tinha como prever como as coisas seriam, agora eu tenho e é triste.

Pelo menos não será um baque tão grande, né? O impacto já foi.

De qualquer forma, tudo isso me deixa muito confusa, estou amando escrever esse livro ao mesmo tempo que ele me preocupa pelo sofrimento futuro que pode me trazer.
É pesado sentir que mesmo você se esforçando ao máximo seu trabalho dificilmente vai ser reconhecido, né? Ah, gente. Quando se quer publicar livro físico aqui no Brasil, a profissão de escritor se torna um verdadeiro sacrilégio. Se querem uma dica, fiquem pelos e-books, é tudo tão mais fácil e até o dinheiro é mais recorrente. Uma pena que eu seja apaixonada por físicos, né? Isso até na vida, pra comprar. Esse gosto que torna minha ambição maior e a queda mais drástica, antecipa o sofrimento. Ahh, ser escritora me faz tão feliz e ao mesmo tempo me destrói!

Como eu queria ficar satisfeita só com o kdp 😭

[Meu Skoob para quem quer estar por dentro de minhas próximas leituras]

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