Resenhas

RESENHA: O Colecionador, de John Fowles.

Saiba a minha opinião sobre o clássico O Colecionador.

Livro: O Colecionador.

Autor: John Fowles.

Páginas: 344.

Editora: Darkside Books.

Lido em: 2 dias.

Skoob


“O Colecionador” é o primeiro livro de John Fowles, escrito em 1963. O romance narra a história de Frederick Clegg, um funcionário público que coleciona borboletas e, subitamente, se torna dono de uma fortuna. Ele então passa a ter uma ambição: sequestrar a bela Miranda, seu amor platônico. A trama se desenvolve com a disformidade da personalidade de Clegg, que tem a seu favor apenas a superioridade de força, contra a vitalidade e inteligência de Miranda que, contando com sua superioridade de caráter, confunde e ofusca o medíocre sequestrador.

Um livro intenso que eu, honestamente, nem sei como começar a falar sobre.

Acho que para iniciar mesmo, é bom ressaltar que esse foi um livro escrito na década de 60, muita gente pode ler e pensar “mas eu já li isso em vários outros materiais”, pois bem, pode-se dizer que esses outros materiais todos adviram deste. Gente, vocês tem noção que os principais seriais killers são da década de 70? Frederick não chega a ser um, tudo bem, mas o autor antecedeu até mesmo a própria psicologia que na época não era tão aprofundada a ponto de estudar com propriedade sobre psicopatia e similares.
O livro toma toda uma áurea especial quando se leva isso em consideração, foi um dos motivos que me fez comprá-lo, afinal, como John Fowles se aprofundaria numa mente que, até então, nem tinha muito estudo sobre?

Uma coisa é hoje em dia, com tanta informação e até mesmo relatos, na ponta dos dedos para se usar, mas em 63? Cara, Ed Gein, o serial killer que serviu como inspiração para Norman Bates e Leatheface era o único grande nome nesse sentido criminal na época, e era tudo muito incerto, então se jogar de cabeça num projeto desse, mostrando um sequestro pelo ponto de vista do sujeito ativo (a princípio), era muito complexo e temos um trabalho fenomenal com isso.

Desde a primeira página você compreende que aquilo é uma obsessão, nada de paixão e amor, como o protagonista diz, era loucura. Uma coisa sem fundamento e inteiramente imaginativa. Ele olha para Miranda, a vítima, e pronto. Ela já prende sua atenção e ele vira um verdadeiro stalker (termo que nem existia na época), descobrindo tudo da vida da menina.

Vale dizer que a estória é levada de forma vagarosa, o início é devagar e até confuso se você considerar o clima que o autor instala entre sequestrador e sequestrada. Mas aos poucos você vai entendendo e é um trabalho de fato muito bem feito.

Miranda é diferente da vítima que você geralmente espera, ela é sagaz e usa da sua inteligência para tentar fugir. Embora seja perceptível seu abalo pela circustância que se encontra, ela tenta conquistar Frederick, conhecê-lo, entender suas inseguranças para atacá-las e, dessa forma, tentar fugir.

É uma figura feminina forte, não há como negar. Muito perspicaz e determinada, outra coisa que me surpreendeu considerando ser um livro dos anos 60.

Aliás, acho importante ressaltar que, diferentemente de Lolita, esse é um livro que, mesmo representando a mente de um louco, não tem uma linguagem complexa nem enfadonha. É de uma leitura simples que pode se tornar pesada apenas pelas situações mostradas.

Achei essa obra bem mais eficaz que a citada anteriormente, pois conseguiu mostrar o desvio psicológico de forma clara, porém não cansativa nem tão detalhada.

O livro acaba por ser dividido em três partes e uma coisa que achei muito interessante é termos a perspectiva da vítima também por meio de um diário que ela escrevia. O intrigante nessa parte foi perceber como John Fowles conseguiu separar bem as narrativas: uma que era vagarosa por causa dos pensamentos obsessivos do personagem, mas que tinha uma passagem de tempo mais amena, outra que carrega um clima claustrofóbico e tremendamente asfixiante onde os dias não parecem passar de forma alguma. Há uma grande dissonância aqui e achei uma coisa espetacular, conseguiu me transpassar com exatidão o que cada um dos personagens estava passando.

Além disso, temos a questão da romantização sendo tratada também, na visão do Frederick, você fica meio assim em alguns momentos, mas na de Miranda não te dá dúvidas: ela o odeia e tudo que faz é para se livrar dele. Por isso é sempre importante estar lembrando, em narrativas de primeira pessoa, quando temos um narrador não confiável. Sua perspectiva é deturpada devido às questões do discernimento.

Eu acho válido ressaltar até os relatos da Miranda quanto ao tal G. P., que era um homem claramente cheio de si e tóxico, apesar de antes já sentir certa coisa por ele, ela passou a vê-lo como um príncipe depois de conhecer Frederick, um homem sem nenhuma emoção, sem sentimentos verdadeiros. Ao menos G. P. tinha intensidade, mesmo sendo podre e ela tendo uma nítida ressalva a se envolver com ele. Dava até pra falar sobre toxicidade e manipulação aqui, mas não vou entrar muito no mérito para não influenciar nas experiências de leituras que podem vir com essa resenha, só digo que essa é uma obra que tem várias camadas se você prestar bem atenção.

Por fim, chegamos no final. Não tinha como esperar algo diferente. É um livro realista demais para nos dar um final que não seja pesado. E o legal é perceber a conexão entre o desfecho e o fato de Frederick ser “o colecionador”. À semelhança entre Miranda e as borboletas. Ele não queria alguém para realmente se apaixonar ou amar, ele queria uma beleza para admirar. E para sempre vai continuar sendo assim.

A edição da Darkside é belíssima tanto por dentro quanto por fora e eu não poderia deixar isso passar, um trabalho fenomenal que tornou a experiência ainda mais intrigante, parabenizo todos os responsáveis, porque considerando todo esse capricho, o preço médio nem é tão caro. Tem outras editoras que fazem um trabalho bem mais porco e cobram super mais caro.

Um livro excelente que se torna muito especial quando você leva em consideração o ano em que foi escrito.

5 estrelas

[Meu Skoob para quem quer estar por dentro de minhas próximas leituras]

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