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A Problemática de A Garota do Calendário

Caramba, eu juro que eu não esperava que escreveria um post desses. Primeiramente, peço que não julguem já de início. Sim, é uma série erótica e que não tem como objetivo ser a coisa mais profunda do mundo, porém, um dos livros (o sexto mais especificamente) abordou um assunto muito importante.

Vamos lá, para quem não sabe sobre o que estou falando, darei um contexto geral. E sim, contarei o final do sexto livro. Mia Sunders trabalha como acompanhante e, dessa vez, trabalha para um homem com mais de 60 anos, Warren. Esse homem tem um filho muito bonito que é um político famoso na cidade, Aaron.

A função de Mia dessa vez é servir como namorada trofeu de Warren para que ele consiga seu objetivo. Ele deve conseguir o máximo de conexões com outros caras poderosos para conseguir criar uma espécie de Médicos Sem Fronteiras, uma organização que leva médicos, remédios e tratamentos para países subdesenvolvidos.

O problema é que, durante uma festa, depois de uma grande revelação, Aaron tenta estuprar Mia. Ele chega muito perto disso e, se não fosse por outros personagens, ele poderia ter até matado Mia.

Só que como se não bastasse, o livro ainda levanta outra questão. Após a atrocidade que seu filho fez, Warren pede que ela não o denuncie, já que isso atrapalharia seus projetos. Ela aceita já que percebe que a associação nunca se concretizaria e, por consequência, milhares de pessoas nunca teriam uma chance de tratamento. As únicas consequências que o abusador sofre é uma bela duma surra e a obrigação de procurar ajuda para seus problemas com bebida. Ou seja, nada de cadeia e sua vida continuou como se nada fosse.

Warren fala como se o único problema do filho fosse a bebida, ele deixa isso claro.

“Eu sabia que ele ficava instável quando bebia. É por isso que ele raramente bebe. O Aaron já teve problemas com a bebida e ficava violento quando estava alcoolizado, mas eu achei que tivéssemos tudo sob controle. Até, é claro, o momento em que contei para ele que a Katheleen e eu estamos juntos. Foi como se alguma coisa se quebrasse dentro dele.”

Essa frase diz, basicamente, que Aaron só era violento quando bebia, mas quem leu o livro sabe que não é assim. Desde o começo, ele apresentou um comportamento extremamente machista, com comentários super degradantes que fez para Mia. Não só isso como ele ainda abusou dela enquanto ela dormia. Eles não chegaram a ter relações sexuais de fato, mas o que ele fez foi abuso.

E também é importante lembrar que a bebida não muda a personalidade de uma pessoa. Depois de uma rápida pesquisa, o que percebi é que as únicas características da personalidade de uma pessoa que são afetadas pelo álcool são as relacionadas à extroversão. Confiança, alegria, animação, vontade de falar, isso de fato muda, violência não.

Isso significa que se Aaron era uma pessoa violenta quando bêbada, também era uma pessoa violenta sóbria. Talvez essa característica de manifestasse mais quando ele estava sob efeito de álcool, mas nada garante que isso não aconteceria quando ele estivesse sóbrio. Conclusão, ele é uma pessoa perigosa.

Mas aí entra o problema da organização de Warren. Será que ela realmente sairia prejudicada se seu filho fosse preso pelo que fez? Acredito que não caso ele usasse a abordagem correta. Ele garantiu que queria que seu filho fosse punido por aquilo que fez, mas não foi isso que ele mostrou. Se ele realmente quisesse que Aaron pagasse, teria o colocado na cadeia e mesmo assim ainda poderia salvar a imagem de sua organização, mostrando que defende a causa das mulheres e que não importa quem seja a pessoa, deve pagar caso machuque ou abuse de alguém. Se sua imagem era assim tão importante, ela poderia ter até melhorado caso denunciasse o filho.

Eu entendo que ele se sentisse talvez até culpado pelo que Aaron fez já que o que desencadeou todo esse problema foi a revelação de um relacionamento escondido, mas mesmo assim, se ele fosse uma pessoa decente e que se sentia mal com o que aconteceu com Mia como ele dizia, deveria ter denunciado.

Mas pensando pelo lado de Mia, pensando que denunciar Aaron de fato acabasse com o projeto de Warren e que milhares de pessoas fossem prejudicadas caso isso acontecessem, não denunciar ainda é justificável?

Vocês já ouviram falar do utilitarismo? Essa proposta defende que as ações, mesmo que erradas, são justificadas caso a maioria das pessoas fique feliz com as consequências. É basicamente isso que acontece nesse caso.

Milhares de pessoas ficariam satisfeitas caso o projeto fosse para frente, eles poderiam ser curados de doenças, ferimentos graves e muitas outras coisas. Mas, por outro lado, um estuprador ficaria solto e não temos nenhuma garantia de que Mia seria sua única vítima.

Várias mulheres poderiam ser machucadas, principalmente considerando o poder que Aaron ter por ser um político, um homem muito poderoso e com muito dinheiro. Do mesmo jeito que Mia denunciou, dificilmente outra mulher denunciaria e ele continuaria abusando e machucando outras mulheres sem nenhum impedimento.

Sim, é verdade que o projeto traria benefícios para várias pessoas, mas denunciar um estuprador também seria bom para milhares de mulheres que sofrem com isso todos os dias. Denunciar e prender Aaron mostraria que não importa o quão poderoso ele seja, ele não pode fazer o que bem entender, assim como qualquer outro homem.

O livro falhou miseravelmente nesse quesito. Entendo que tentaram abordar um assunto sério, mas deveriam ter feito uma denúncia, não tentar fazer Mia parecer a menina boazinha, a salvadora da pátria.

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