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Porque as escolas incentivam as crianças a ler do jeito errado

Já cansamos de deixar claro aqui no blog que não gostamos do jeito que as escolas “incentivam” as crianças a ler. O problema é que tanto eu quanto a Thais falamos disso de um jeito meio vago, não nos aprofundamos muito e por isso hoje, vamos debater um pouco mais o assunto.

Por sinal, convido alunos e professores a deixarem suas opiniões e experiências nos comentários. Desse jeito a discussão fica ainda melhor.

Mas primeiro, quero contar a experiência da minha turma da escola. Como eu estudei na mesma escola a vida inteira, eu conheço bem o passo a passo que nossos professores seguiram para nos fazer desenvolver o gosto pela leitura. Nossa turma era bem dividida. Era o clássico 8 ou 80, haviam aqueles que amavam a leitura de todo o coração, e aqueles que detestavam.

No começo, as professoras foram até bem. No maternal, toda sexta-feira, nós escolhíamos um livro para ler no fim de semana para contar a história para as outras crianças na segunda. Claro que eram livrinhos minúsculos, mas éramos crianças e ainda estávamos aprendendo a ler.

Alguns anos se passaram e começamos a ter as “provas do livro”. Ganhávamos um livro da escola todo semestre para ler e em uma determinada data, fazer uma prova sobre ele. Nessa época os livros eram de fato interessantes, eram histórias infantis e eu lembro muito bem que todos nós (pelo menos a grande maioria) passávamos um bom tempo discutindo qual seria o final.

Mais um tempo se passou e a turma voltou a ficar dividida. Enquanto alguns amavam ler, outros achavam um saco. E acho até que foi por isso que os professores começaram a implementar uma nova regra para as aulas de português em que pelo menos uma vez por bimestre, tínhamos que entregar uma ficha de leitura.

Essa ficha funcionava de um jeito bem simples. Pelo menos uma vez por bimestre, depois de ler um livro da nossa escolha, pedíamos a ficha para a professora e respondíamos à algumas perguntas nela, para depois entregar. Podíamos pedir quantas fichas quiséssemos, e o aluno que entregasse mais, ganhava um prêmio ao final do ano.

Aquelas crianças que gostavam de ler disputavam para ver quem entregava mais fichas. Percy Jackson, Crepúsculo, Hush Hush, líamos tudo. Já aqueles que não gostavam, simplesmente pegavam as fichas dos amigos e mudavam as palavras.

O que por sinal, foi o maior defeito de todas as outras etapas. Pode até parecer que não, mas as crianças são espertas. Se elas não gostam de alguma coisa, vão inventar qualquer coisa para não ter que fazer. Nas provas do livro, nas fichas, em qualquer coisa, era só pedir para os amigos. Ninguém era realmente obrigado a ler.

E de qualquer forma, isso nem deveria acontecer. Quando uma criança é obrigada à fazer alguma coisa, automaticamente ela vai parar de gostar dessa coisa. Muitos dos alunos que gostavam de ler, pararam depois de ter que começar a ler aquilo que não queriam e não gostavam.

Algumas vezes, por mais que você lesse o livro inteiro, acabava indo mal na prova. É por que não leu direito? Ou entregou menos fichas do que o seu amigo mesmo sabendo que ele não lê nada. O que você fez de errado? Quanto mais essas coisas acontecem, mais a cabeça da criança é estragada.

Mas eu não quero que vocês me entendam mal. Faz parte da nossa vida passar por avaliações, somos testados todos os dias. Mas se você quer ensinar uma criança à gostar de alguma coisa, esse definitivamente não é o jeito.

E aí chega o ensino médio, em que nossos professores são obrigados a nos passar os clássicos da literatura brasileira. Essa parte deixa de ser culpa dos professores e passa a ser de um sistema muito mal formulado que obriga um adolescente com praticamente nenhuma cultura e vocabulário à ler Machado de Assis para passar em uma prova que ele talvez nem queira fazer.

Muitas escolas têm aula de literatura, mas infelizmente, elas praticamente não prendem a atenção. Mas volto a dizer, não é culpa dos professores. Se eles não passarem aquilo que é cobrado nos vestibulares, talvez até percam o emprego.

Aí chegamos em um ponto em que a única coisa que lemos são livros que não têm nada a ver com nossa realidade. O Cortiço, Dom Casmurro, Morte e Vida Severina.

Eles são importantes, as histórias na maioria das vezes são interessantes, mas não podem pedir para adolescentes de 15 anos ler esses tipos de livros. Eles não vão entender e ainda vão pegar mais ódio pela leitura.

Claro que existem exceções. Um ou outro adolescente de 15 anos conseguem ler esses livros perfeitamente, mas esses são aqueles que devoram livros desde pequenos.

Se você está aqui, em um blog literário, provavelmente é porque você é uma das poucas pessoas no país que ainda lê, então você sabe quais são os benefícios da leitura. Pense como é a vida dessas pessoas que não gostam.

Primeiramente, vai ser bem difícil essas pessoas conseguirem fazer uma faculdade decente. Já na época do pré-vestibular, não vão conseguir ler uma página de qualquer livro que seja, não conseguirão ler qualquer noticia para ficarem atualizados.

Quem está na faculdade sabe a quantidade de leitura que temos que fazer independente do curso. Agora, se a pessoa não consegue ler um parágrafo, acha que ela vai conseguir ler um livro didático?

Além da dificuldade de ler mais de uma página em menos de uma semana, a pessoa que não tem o hábito de leitura, dificilmente terá um vocabulário decente e provavelmente não saberá escrever.

Eu entendo que algumas pessoas tem dificuldade na escrita. Eu por exemplo sou apaixonada pelo estudo de idiomas, mas sempre tenho muita dificuldade na escrita, não importa o quanto eu pratique.

Mas é aquela história, não posso usar essa pequena dificuldade para não conjugar um verbo direito, para diferencia mais de mas. Se confundir na hora de colocar c ou s em uma palavra ou esquecer uma vírgula é uma coisa que acontece muitas vezes. Nesse texto que você está lendo com certeza tem algum erro de português, ninguém está livre do erro, mas não podemos achar que errar sempre é normal.

Só temos dois jeitos de aprender a escrever corretamente. O primeiro é pegar uma apostila cheia de exercícios de português e passar horas praticando com esses exercícios, ou simplesmente sentar no seu sofá e ler uma história maravilhosa. Qual jeito você prefere?

Bom, esse post já tem mais de 1000 palavras, então acho que já está longo o suficiente. Mas volto a convida-los para continuar o debate aqui nos comentários, principalmente se você for um professor ou aluno.

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