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Outlander e os estupros: A problemática de Outlander.

Problematizando certo ponto em Outlander.

(Primeiro post do ano, yey!! Feliz 2019!!)

Certo, esse post será recheado de spoilers das quatro temporadas de Outlander, consequentemente dos quatro primeiros livros também, já os deixo avisados.

Falei diversas outras vezes da série aqui, se vocês procurarem pelo blog, acharão e podem notar que eu nunca fiz uma crítica negativa, sempre elogiei de monte, porque realmente é um trabalho bem feito, tem seus excessos, seus defeitos, mas em geral é excelente e eu adoro ler ou assistir. Então por esses antigos posicionamentos vocês podem ficar chocados com o fato de eu vir problematizar alguma coisa dessa série que já aleguei tantas vezes amar.

Ok, vamos por partes que logo entenderão.

Assisti à série antes de ler os livros e me lembro muito bem que na primeira temporada me incomodava muito cenas de abuso e estupro, porque sim, eu sei que isso é muito recorrente na realidade e é interessante colocarmos isso nos meios de entretenimento, mas era tanta cena com esse teor na série que eu ficava enjoada. Teve um episódio inclusive que eu fui marcar como visto no banco de séries e me recordo de ter dado uma nota bem baixa porque estava exausta de tantas cenas com algum tipo de abuso. Acho que a questão do estupro é um gatilho para qualquer pessoa, porque, sinceramente, quem não fica desconfortável? Minha ansiedade sempre ataca quando leio ou assisto coisas do tipo.

Mas enfim, eu fui assistindo e com o tempo me acostumando, já nem doía muito assistir aquelas cenas, afinal, eram tantas que misericórdia. No livro também peguei para ler esperando isso e nem me incomodei exatamente por já ter noção do ritmo da série.

O negócio é que eu entrei em um grupo de Facebook há pouco tempo, o grupo do Outlander da Depressão, fui bem ambiciosa, pensando só em conseguir eps novos sem vírus, hahaha, mas as meninas de lá me deram uma aula de vários assuntos.

Nesse mundo televisivo/cinematográfico existe um método que não tem um nome específico, mas usa do estupro para fazer alguma mudança na personagem em questão, seja humanizar, mostrar força, amadurecimento ou o que seja. Não vou me alongar muito nesse assunto, quem se interessar, indico esse artigo muito interessante que achei no site Séries por Elas. Nesse grupo que entrei no Facebook, tive a oportunidade de conhecer esse tópico e reconhecer o quanto ele está presente em Outlander, e muito além disso, como a própria autora acaba relativizando o estupro em algumas partes.

Para começar, Jamie sendo estuprado lá em Fort William, primeiro livro, final da primeira temporada da adaptação. Aquilo claramente foi feito para o que? Amadurecer Jamie, e isso fica nítido. O personagem vira outro se você considerar o antes desse abuso e depois. E aí eu pergunto para vocês, era realmente necessário?

Quer dizer, ele já estava comendo o pão que o diabo amassou, sofrendo como um rato, mas mesmo assim nos é colocada uma cena de estupro.

Claire também sofria diversos abusos nojentos, se vocês forem notar, até mesmo do próprio Jamie.

Se eu não me engano, na série isso não chega a acontecer, porém, no livro, quando há aquele primeiro embate entre Jamie e Lorde John, na época que o segundo ainda era uma criança, o primeiro pega Claire, rasga o vestido dela e expõe seu corpo de forma abusiva, apenas para dar um ultimato no garoto. Essa cena me causou um grande desconforto na época, porque a protagonista foi tratada como um grande nada, mas ok, acabei por relevar pensando no século que eles estavam e tudo mais.

Black Jack também fez um monte de coisas com ela e percebe-se que Claire não se abala muito com isso, ou seja: Mostra força.

Tem uma parte do livro que eu honestamente nem tinha me tocado, é na primeira de Tambores do Outono, no qual depois da personagem quase morrer na neve por ter se perdido, o marido faz sexo com ela inconsciente. Eu juro que nem me recordava disso e possivelmente, Diana deve ter relativizado isso, como se não fosse o problema que realmente é: Estupro marital também existe e precisamos discutir isso! Porque creio que é um dos tipos mais comuns.

Enfim, cheguemos no que me levou a escrever esse post: O estupro de Brianna.

Eu fiquei tão, mas tão impactada lendo o livro… Vocês não tem noção. Me veio um nó na garganta, minha boca ficou seca. Simplesmente não dava, foi explícito demais, apelativo demais. Nojento demais. Tive que largar o livro por uns minutos, era mais do que eu poderia suportar.

Fui pulando linhas, tentando ainda assim aproveitar da leitura, mas aquilo foi impactante em um nível indescritível para mim, pois percebi que a garotinha que eu praticamente vi crescer no decorrer das páginas estava passando por uma coisa do tipo, muito além disso, pensei na vez que um homem invadiu minha casa e aquilo podia ter acontecido comigo, indo ainda mais além, no instante em que eu estava lendo aquilo segura na minha casa, deviam ter centenas de mulheres sofrendo aquilo.

Não achei que fosse necessário expor de forma tão verídica, podia ser mais encoberto, menos chocante, odiei aquela cena, simplesmente.

Então chegamos na série. Acabei de assistir o episódio 8, o que nos apresenta essa parte em questão.

Não é tão apelativo quanto na obra original, nem mesmo é mostrado muita coisa, graças a Deus por isso, mas ainda assim me incomoda. Por que?

Porque se trata daquele mesmo método que eu citei antes, estupro sendo usado para mudar uma personagem, um ato extremamente degradante, humilhante e nojento sendo usado para amadurecer a cabeça de Brianna.

Isso não lhes parece problemático? Digo, há tantas outras formas de amadurecer, sabem? Eu amadureci muito lidando com a ansiedade, tem gente que amadurece com as responsabilidades da vida, outros com o casamento… Tem tantos, mas tantos artifícios, por que usar desse, tão sujo e desconfortável?

O estupro não é uma forma de amadurecimento, pelo amor de Deus! Sempre que eu penso em sofrer algo assim, acredito que para mim não haveria outra saída além do suicídio, é uma dor grande demais para carregar, principalmente se você considerar que Brianna acaba grávida, sem saber se o seu filho é do estuprador ou não.

No tempo em que era mostrado esse maldito amadurecimento na Bree, só conseguia imaginar o quanto eu estaria absolutamente desolada. Não iria querer sair de casa, possivelmente logo que encontrasse minha mãe ia chorar nos braços dela e pedir para não sair dali nunca mais. Tudo bem, cada pessoa reage de uma forma, mas nessa série todos os personagens reagem da mesma: Como se nada fosse.

Não vejo nenhum mundo onde o estupro é tratado dessa forma e me parece muito injusto, especialmente para as pessoas que sofreram disso. Estupro não cria amadurecimento, não é demonstração de força e nem uma forma de criar empatia. É um abuso, que merece ser tratado como tal.

2 comentários

  1. Obrigada por esse texto. Vi só a primeira temporada da série e já desisti, muita cena de estupro, sem propósito. E a sinopse da série fala muito mais da questão da viagem do tempo, então não tava esperando por isso. Séries como Inacreditável da Netflix e The Handmaid’s Tale tratam da temática do estupro, tem cenas fortes, mas com um propósito muito importante. E eu não encontrava ninguém falando de como as cenas de Outlander em relação ao estupro são fortes e em excesso e o enredo fraco para justifica-las. Pior ainda ler que a séries continua com a mesma pegada até hoje…

    Curtido por 1 pessoa

  2. Obrigada pelo seu comentário! E sim, eu assisto The Handmaid’s Tale também (parei na 2º temporada mas assisti bastante, hehe) e mesmo você se sentindo desconfortável, você consegue entender porque acontece e porque a June reage daquelas formas (ela não tem opção, e dá pra ver que isso destrói ela por dentro), mas em Outlander, o estupro é usado de tantas formas que acaba se tornando algo manjado e corriqueiro, o que está errado! Vejo gente defendendo, falando que na época era assim mesmo, de fato, hoje em dia ainda temos muitos casos de estupro, antigamente era pior, mas o entretenimento precisa deixar claro que aquilo que estamos vendo é ERRADO, a impressão que passa, é que a autora quer normalizar o ato, e não dá pra defender isso. Estupro é pior que a morte, na minha humilde opinião.

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